sexta-feira, 11 de março de 2011

228- Coluna 7 - Coluna do professor Virgilio: Apertando o Cerco

COLUNA 7, APERTANDO O CERCO

Virgílio de Mattos




Eu queria mesmo era ser um bom tocador de violino, não sei se você sabia disso. Quis ser trocador de ônibus, com o meu pai sendo o motorista. Bombeiro e eletricista – como diz o Paolo Conte: assim pelo menos um pouco de luz haverá. Mas acabei, quem mandou estudar? Lecionando criminologia na academia.
Sim, quem diria, o garoto maluco de Niterói, o filho do verdureiro, o neto do analfabeto, na prática radicalizando o verso de Borges: “enseñar lo que no sé/a quienes sabrán mucho más que yo”.
Sempre tive pavor de trabalhar sob o sol terrível dos trópicos nas estafantes jornadas de 12 horas ou mais e como diz Massimo Pavarini, a melhor maneira de sobreviver sem trabalhar é fazendo o professor universitário. Obviamente que isso é brincadeira do Pavarini. Nem na Università Degli Studi di Bologna, alma mater studiorum, é assim.
Mas o que ensinar? Muitos reproduzem as bobagens de senso comum e tentam emprestar a isso cientificidade. A desordem e o retrocesso sobre a mesa. Enquanto alunos dormem ou olham as “novidades” pelo computador.
Ensinar a pensar criticamente não é simples, assim como construir frases com sujeito, verbo e predicado.
Perguntar vocês estão entendendo? Também produz pouco ou nenhum efeito. Até aqui, tudo bem? Dá no mesmo. O que querem saber mesmo é se, tipo assim, as anotações de aula podem “estar sendo” disponibilizadas – outro antipático verbo da tucanalha – e se pagando as mensalidades direitinho ao final de 60 meses sai o diploma.
Eu também tive a ilusão de ascensão pela via universitária, a ditadura ainda era uma criança.
Mas o que dizer a você, meu chapa? “Que posso dizer nessa hora tão trágica?”, já disse isso. Estamos cercados!
De fato estamos cercados pelo que há de pior: o consumo desenfreado, a crise (final?) do capitalismo, uma TV mondo cane e um rádio idem, fim da mídia impressa? Quanto otimismo, heim?
Mas temos que seguir, apertados, apertando o cerco. Dizermos que nada disso nos move ou nos consola e que, sobre e apesar de tudo, continuamos acreditando que o homem deve ser amigo do homem e não patrão do homem.
Dizer e explicar que essas teorias aparentemente sofisticadas não são nada mais do que a justificação, agora com verniz pretensamente teórico, da exploração. Nada mais. Nada além.
E vamos aí, sobreviventes, às vezes até sorridentes com um ou outro tombo no tempo – se você não sabia, fique sabendo: a maior graça é rirmos de nós mesmos!
O importante, como já percebeu o Heitor Magalhães, não é apenas poder fazer um bom cajado e curtir cada passo desse exercício aparentemente simples e, vá lá concedo: até mesmo metafísico, que é o de saber para que serve um cajado.
Seja Lênin ou Lacan, estamos fazendo da vida esse jogo de sinuquinha. A gente matando as ímpares.
Pouco se me dá que o Super-Homem esteja comendo a Mulher Maravilha. Nietsche está morto e sequer sabia aparar o próprio bigode. O Super-Homem, bem, o Super-Homem se fosse mesmo muito esperto e poderoso não vestiria as cuecas por cima das calças...
A sensação de estar cercado é essa. É preciso apertar o cerco contra esses sacanas que só têm pose e posse. Estamos soltos nas esquinas, já, já essa exploração termina.

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